nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas!
E. E. Cummings
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Cartas a Hermengardo, por Clarice Lispetor
14 de junho de 1941
26 de julho de 1941
30 de agosto de 1941
Querido,
Imagina só que eu hoje me senti tão feliz que me pus a andar pelo quarto até sentir as pernas cansadas e a cabeça tonta. Imagina só que estava chovendo e eu me lembrei de ti. Não, não é assim que eu devo contar.
Começarei de outra forma. Como sabes, eu não posso me queixar de infelicidade, porque graças a Deus, não me falta o pão nas horas certas e afinal tenho uma cama onde me estirar depois de um dia em que cumpro meu dever. Pois bem, querido, amado, eu sou tão mal agradecida que às vezes me parece pouco ter o pão e a cama. Às vezes me parece pouco até o fato de eu ter uma saúde regular e as duas pernas que a providência não me quis tirar. Bem sei que é uma vergonha e é como tal que eu o confesso.
Como eu ia lhe dizendo, às vezes tudo fica com um gosto de borracha e nesse momento nem mesmo tomar café na cama me distrai. Tudo fica velho de repente e eu peço a cada instante. Imagina, queridíssimo, que eu chego a me perguntar: para que o trabalho? para que tomar café na cama? para que algum prazer? Imagina, meu bem, eu, que deveria agradecer continuamente por ter nascido com os dois olhos sãos, ou mesmo, por ter nascido, imagina que essa miserável criatura que eu sou se revolta contra a Criação! Tu bem podes crer quanto eu me maldigo depois desses momentos. O pior é quando eles se instalam podem durar pouco mas podem durar muito também. E, às vezes, depois de vários dias de pecado, eu me acordo como se tivesse perdido a memória. Ora é o sol que eu enxergo pela primeira vez, ora é o ar que eu descubro como é bom de respirar. Naturalmente eu não conto isso a ninguém porque as outras criaturas são melhores que eu e não duvidam da alegria de Deus.
Vês, queridíssimo, eu tenho até medo de mim, em alguns momentos. que ousadia a minha de escrever esta frase: duvidar da alegria de Deus. Até onde vou chegar, é isso que eu me pergunto. Até onde?Pois bem, quando estava chovendo, hoje mesmo, eu profanei a Criação com um coração tão torturado e uma alma onde havia tanta raiva que a bondade das criaturas não podia entrar. Levei minha cara para rua, sobre uma maca, mostrando-a a todos: chorem por mim,, chorem por mim. E toda vez que alguém sorria, eu gritava: mor-te mor-te mor-te. Confesso, contrita e arrependida, que eu me alegrava quando a coisa saía bem-feita.Mas eu hoje voltei cedo para casa e no meu quarto não tinha, como sempre, ninguém, e eu fiquei sozinha com meus trinta e dois anos incompletos e me pus a chorar, com pena de mim. Tentei tudo, afianço-lhe, para melhorar. Repeti, repeti: que a maldição caia sobre mim, se eu não ficar alegre! Nenhum resultado. Tentei com melhores modos: você nada é que direito tem de ficar triste? Zero. Então eu vi que era sincera, embora não compreendesse porque numa terra tão feliz, eu chorava.E o pior é que eu comecei a ficar orgulhosa: será que outras pessoas sentem o que eu sinto? aposto que não. Estás vendo, amor, como se pode chegar a um grau de desgraça tal em que se ama a sua própria ferida. Olha, quando eu ouço música eu me alegro, mesmo sem saber por quê. Pois bem, eu estava sofrendo mesmo sem saber por quê... (Vergonha, vergonha! Falar em "sofrer", quando há gente a quem Deus castiga com sua cólera, tirando-lhe o pão!)Querido, meu gatinho branco, foi então que me salvaste. Foi por isso que andei pelo quarto louca de alegria, até me cansar. De minha janela enxerguei-te debruçado a tua. Não me olhaste e parece mesmo que não me conheces ainda. Levaste à boca o finzinho do cigarro, depois amassaste-o com cuidado, jogaste-o fora... e pronto. Só isso. Mas eu compreendi a mensagem.Perdoa meu egoísmo, usei teu nome para não enveredar pelo caminho do pecado. Repeti, como uma oração, ajoelhada perto da cama: José. José. José. José. José. Disse tantas vezes o mesmo que no fim já havia mudado o teu nome por um outro, de que gosto mais: Hermengardo. Hermengardo. Hermengardo. Hermengardo... E depois eu disse: eu te amo, eu te amo, eu te amo... E o meu amor pelos homens reconciliou-me com o mundo e com Deus.Não posso ser tão orgulhosa que pensa ter a chuva parado porque Deus quis abençoar minha redenção. Mas eu sinto que essa é a verdade, aí está.E é por isso, meu rei, que eu beijo teus cabelos e tuas mãos. E sinto-me tão agradecida e feliz que é mesmo possível que eu te mande um dia todas as cartas que te escrevi.A sempre grata e humilde,- IDALINA
26 de julho de 1941
Meu querido Hermengardo:
Hoje é domingo e a cidade está bonita. Não há ninguém nas ruas e todas as árvores existem sozinhas e soberanas. As inquietações e os desejos e os ódios se abaixaram, se estiraram sobre a terra, cansados de existir. E à altura da boca só encontro o ar suave e puro de renúncia serena.Minha alma, durante toda a semana encolhida, tem desejos súbitos de se espreguiçar, de se sentir elásticas por uns momentos, para tingir-se depois de uma lassidão tão feliz quanto a que hoje amolece a natureza. Preciso pensar uns minutos para depois possuir o doce descanso.Por isso falarei das paixões. E sei que me escutarás porque eu já te transmiti a impressão e o desejo do domingo. E por que eu te digo que falareis com as roupas de um pastor. E isso me torna pequena e isso me concilia contigo.Eu queria te dizer que ter paixões não é viver belamente, mas sofrer inutilmente. Que a alma foi feita para ser guiada pela razão e que ninguém poderá ser feliz se estiver à mercê dos instintos. Porque nós somos animais porém somos animais perturbados pelo homem. E se aqueles perdoam a este, este é orgulhoso e exigente e nunca perdoa os excessos daqueles.Eu te falo das paixões pela sua qualidade e pelos seus efeitos.Pela sua qualidade porque enquanto o corpo é ativo, a alma é de natureza contemplativa e, nada sabendo, medita para concluir. É esta a sua função. E pelos seus efeitos, porque o arco se sente vazio depois de ter despedido a flecha.Eu te digo que há uma alegria em renunciar à dor das paixões. Porque desejá-las é desejar a dor e não o contentamento e os nobres sentem em si a necessidade de auscultar sua capacidade de arder. E eu te digo que não vale arder, vale repousar. Vale encontrar a compreensão de si da vida por intermédio da razão, que nos distingue dos animais.E se um dia eu te falei em "paixões nobres", não as chamei de nobres pela sua natureza nem pelas suas consequências, senão por piedade de sua fonte, o eterno vazio do homem. Porque o homem perturbado pelo orgulho procura a paixão como uma forma de achar a humildade, Ele pressente (e ai dos cegos) que depois virá a humildade e na humildade há a serenidade da flor que se permite balançar ao sopro da brisa.Há esse herói, um homem sem conteúdo que deseja, pela febre, encontrar a calma. Este não deve ser aplaudido, mas lamentado. Há o outro herói, o que deseja apenas o alvoroço. E esse é um homem que não pôde se impedir de voltar. É um fraco. Mas se tu quiseres chamá-lo de nobre chama-o. Porque também há uma grande beleza nos animais. E de qualquer modo, tudo quanto existe é lindo, tanto o erro quanto a verdade. Apenas acontece que essa atitude de achar a beleza é uma atitude de quem olha do céu para a terra e se emociona com as fraquezas de seus filhos. Os homens, porém, lutam muito e desejam muito. Não têm tempo de procurar o conjunto. Eles querem a felicidade individual.E é por isso que eu te digo: a paixão não é o caminho.Existe um outro, o único.Nós chegamos a um certo grau de consciência de nossa inteligência e, sabendo que é esta a nossa marca de homem, descobrimos que a ela devendo (sic) dar a nossa força para atingirmos a perfeição humana. E nem com isso quero dizer que deixemos de ser animais. Nunca renunciaremos a essa felicidade. O que devemos procurar é que este estado primitivo suba um pouco e que nosso orgulho de raciocinante desça um pouco até que os dois seres que existem em nós se encontrem, se absorvam e formem uma nova espécie na natureza.E é por isso que eu te digo: abandoa o que destrói. A paixão destrói porque desassocia. A paixão nasce no corpo e não o compreendendo, nós a situamos na alma e nos perturbamos.Eu te explico tudo isto para que nunca enalteças o que vai para a guerra com o espírito contente eo que se mata por amor. Perdoa-os apenas. Eles ainda não compreenderam que na vida existe o sorriso e que a paixão o destrói e o transforma num ríctus tremendo, que já não é humano.Se tu não puderes te libertar de desejar paixões, lê romances e aventuras, que para isso também existem os escritores.E outra coisa: conta o que eu te disse a algum jovem que não dorme de noite, imaginando novas aventuras de d. Quixote. Explica-lhe que o "depois" da paixão tem gosto de cigarro apagado. Pede-lhe, por mim, que seja homem e não herói, porque a natureza não exige dele senão que seja feliz e ache a paz da clareira por atalhos menos dolorosos.Explica-lhe isto e eu poderei gozar este domingo com a humildade necessária.Agora se me perguntasse: "Como sabes dessas coisas?" eu te responderei com as palavras de Kipling, tão citadas pelo meu professor de Direito Público: "Isso é uma outra história..."Agradecida por me escutares,- IDALINA.
30 de agosto de 1941
Meu querido Hermengardo:
Em verdade eu te digo: felizmente tu existes. A mim me bastava apenas a existência de uma criatura sobre a terra para satisfazer o meu desejo de glória, que não é senão um profundo desejo de vizinhança. Porque eu me enganei quando há tempos imaginei como real minha antiga vontade de "salvar a humanidade", "malgrè" ela. Agora só desejo mais alguém, além de mim mesma, para quem eu possa me provar. E nessa volta para Idalina compreendi também que tão belo e tão impossível como aquele outro sonho é o de tentar salvar-se a si mesmo. E se é tão impossível, por que então me encaminhar para esta nova cidadela que seria agora uma pobre mulher perturbada? Não sei. Talvez porque é necessário salvar alguma coisa. Talvez pela consciência tardia de que nós somos a única presença que não nos deixará até a morte. E é por isso que nos amamos e nos buscamos a nós mesmos. E porque, enquanto existimos, existirá o mundo e existirá a humanidade. Eis como, afinal, nós nos ligamos a eles.Tudo isso que eu estou dizendo é apenas um preâmbulo qualquer que justifique meu gosto de te dar tantos conselhos. Porque dar conselhos é de novo falar de si. E cá estou eu... Mas, afinal, eu posso falar com a consciência em paz. Nada conheço que dê tanto direito a um homem como o fato dele estar vivendo.Este preâmbulo também serve por uma desculpa. É que percebo, mesmo através das palavras mais doces que o milagre de respirares me inspira, o meu destino de jogar pedras. Nunca te zangues comigo por isso. Uns nasceram para adorar; outros para comer; outros para rir; eu nasci para lançar pedras. E afinal, (começa aqui minha função) por que será mau lançar pedras, senão porque elas atingirão coisas tuas ou dos que sabem rir, adorar e comer?Uma vez esclarecido este ponto e uma vez que me permite jogar pedras, eu te falarei da Quinta Sinfonia de Beethoven.Senta-te. Estende tuas pernas. Fecha os olhos e os ouvidos. Eu nada te direi durante cinco minutos para que possas pensar na Quinta Sinfonia de Beethoven. Vê, e isto será mais perfeito ainda, se consegues não pensar por palavras, mas criar um estado de sentimento. Vê se podes parar todo o turbilhão e deixar uma clareira para a Quinta Sinfonia. É tão bela.Só assim a terás, por meio do silêncio. Compreendes? Se eu executar para ti, ela se desvanecerá, nota por nota. Mal dada a primeira, ela não mais existirá. E depois da segunda, a segunda não mais ecoará. E o começo será o prelúdio do fim, como em todas as coisas. Se eu a executar, ouvirás músicas e apenas isto. Enquanto que há um meio de detê-la, parada e eterna, cada nota como uma estátua dentro de ti mesmo.Não a executes, é o que deves fazer. Não a escutes e a possuirás. Não ames e dentro dentro de ti o amor. Não fumes o teu cigarro e terás um cigarro aceso dentro de ti. Não ouças a Quinta Sinfonia de Beethoven e ela nunca terminará para ti.Eis como eu me redimo de lançar pedras, tão sempre. Eis que eu te ensinei a não matar. Erige dentro de ti o monumento do Desejo Insatisfeito. E assim as coisas nunca morrerão, antes que tu mesmo morras. Porque eu te digo, ainda mais triste que lançar pedras é arrastar cadáveres.E se não puderes seguir meu conselho, porque mais ávida que tudo é sempre a vida, se não puderes seguir meus conselhos e todos os programas que inventamos para nos melhorar, chupa umas pastilhas de hortelã. São tão frescas.Tua- IDALINA
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Canção Final
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
Carlos Drummond de Andrade
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.
Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.
É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.
Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 6 de agosto de 2013
A Fuga, por Clarice Lispector em "A Bela e a Fera"
Começou a ficar escuro e ela teve medo. A chuva caía sem tréguas e as calçadas brilhavam úmidas à luz das lâmpadas. Passavam pessoas de guarda-chuva, impermeável, muito apressadas, os rostos cansados. Os automóveis deslizavam pelo asfalto molhado e uma ou outra buzina tocava maciamente.
Quis sentar-se num banco do jardim, porque na verdade não sentia a chuva e não se importava com o frio. Só mesmo um pouco de medo, porque ainda não resolvera o caminho a tomar. O banco seria um ponto de repouso. Mas os transeuntes olhavam-na com estranheza e ela prosseguia na marcha.
Estava cansada. Pensava sempre: "Mas que é que vai acontecer agora?" Se ficasse andando. Não era solução. Voltar para casa? Não. Receava que alguma força a empurrasse para o ponto de partida. Tonta como estava, fechou os olhos e imaginou um grande turbilhão saindo do "Lar Elvira", aspirando-a violentamente e recolocando-a junto da janela, o livro na mão, recompondo a cena diária. Assustou-se. Esperou um momento em que ninguém passava para dizer com toda a força: "Você não voltará". Apaziguou-se.
Agora que decidira ir embora tudo renascia. Se não estivesse tão confusa, gostaria infinitamente do que pensara ao cabo de duas horas: "Bem, as coisas ainda existem". Sim, simplesmente extraordinária a descoberta. Há doze anos era casada e três horas de liberdade restituíam-na quase inteira a si mesma: primeira coisa a fazer era ver se as coisas ainda existiam. Se representasse num palco essa mesma tragédia, se apalparia, beliscaria para saber-se desperta. O que tinha menos vontade de fazer, porém, era de representar.
Não havia, porém, somente alegria e alívio dentro dela. Também um pouco de medo e doze anos.
Atravessou o passeio e encostou-se à murada, para olhar o mar. A chuva continuava. Ela tomara o ônibus na Tijuca e saltara na Glória. Já andara para além do Morro da Viúva.
O mar revolvia-se forte e, quando as ondas quebravam junto às pedras, a espuma salgada salpicava-a toda. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo, porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras, sombrias, tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito. Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro d'água e pensar que aquele mundo não tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas por que a procurava então?
A história de não encontrar o fundo do mar era antiga, vinha desde pequena. No capítulo da força da gravidade, na escola primária, inventara um homem com uma doença engraçada. Com ele a força da gravidade não pegava... Então ele caía para fora da terra, e ficava caindo sempre, porque ela não sabia lhe dar um destino. Caía onde? Depois resolvia: continuava caindo, caindo e se acostumava, chegava a comer caindo, dormir caindo, viver caindo, até morrer. E continuaria caindo? Mas nesse momento a recordação do homem não a angustiava e, pelo contrário, trazia-lhe um sabor de liberdade há doze anos não sentido. Porque seu marido tinha uma propriedade singular: bastava sua presença para que os menores movimentos de seu pensamento ficassem tolhidos. A princípio, isso lhe trouxera certa tranquilidade, pois costumava cansar-se pensando em coisas inúteis, apesar de divertidas.
Agora a chuva parou. Só está frio e muito bom. Não voltarei para casa. Ah, sim, isso é infinitamente consolador. Ele ficará surpreso? Sim, doze anos pesam como quilos de chumbo. Os dias se derretem, fundem-se e formam um só bloco, uma grande âncora. E a pessoa está perdida. Seu olhar adquire um jeito de poço fundo. Água escura e silenciosa. Seus gestos tornam-se brancos e ela só tem um medo na vida: que alguma coisa venha transformá-la. Vive atrás de uma janela, olhando pelos vidros a estação das chuvas cobrir a do sol, depois tornar o verão e ainda as chuvas de novo. Os desejos são fantasmas que se diluem mal se acende a lâmpada do bom senso. Por que é que os maridos são o bom senso? O seu é particularmente sólido, bom e nunca erra. Das pessoas que só usam uma marca de lápis e dizem de cor o que está escrito na sola dos sapatos. Você pode perguntar-lhe sem receio qual o horário dos trens, o jornal de maior circulação e mesmo em que região do globo os macacos se reproduzem com maior rapidez.
Ela ri. Agora pode rir... Eu comia caindo, dormia caindo, vivia caindo. Vou procurar um lugar onde pôr os pés...
Achou tão engraçado esse pensamento que se inclinou sobre o muro e pôs-se a rir. Um homem gordo parou a certa distância, olhando-a. Que é que eu faço? Talvez chegar perto e dizer: "Meu filho, está chovendo." Não. "Meu filho, eu era uma mulher casada e sou agora uma mulher". Pôs-se a caminhar e esqueceu o homem gordo.
Abre a boca e sente o ar fresco inundá-la. Por que esperou tanto tempo por essa renovação? Só hoje, depois de doze séculos. Saíra do chuveiro frio, vestira uma roupa leve, apanhara um livro. Mas hoje era diferente de todas as tardes dos dias de todos os anos. Fazia calor e ela sufocava. Abriu todas as janelas e as portas. Mas não: o ar ali estava, imóvel, sério, pesado. Nenhuma viração e o céu baixo, as nuvens escuras, densas.
Como foi que aquilo aconteceu? A princípio apenas o mal-estar e o calor. Depois qualquer coisa dentro dela começou a crescer. De repente, em movimentos pesados, minuciosos, puxou a roupa do corpo, estraçalhou-a, rasgou-a em longas tiras. O ar fechava-se em torno dela, apertava-a. Então um forte estrondo abalou a casa. Quase ao mesmo tempo, caíam grossos pingos d'água, mornos e espaçados.
Ficou imóvel no meio do quarto, ofegante. A chuva aumentava. Ouvia seu tamborilar no zinco do quintal e o grito da criada recolhendo a roupa. Agora era como um dilúvio. Um vento fresco circulava pela casa, alisava seu rosto quente. Ficou mais calma, então. Vestiu-se, juntou todo o dinheiro que havia em casa e foi embora.
Agora está com fome. Há doze anos não sente fome. Entrará num restaurante. O pão é fresco, a sopa é quente. Pedirá café, um café cheiroso e forte. Ah, como tudo é lindo e tem encanto. O quarto do hotel tem um ar estrangeiro, o travesseiro é macio, perfumado, a roupa limpa. E quando o escuro dominar o aposento, uma lua enorme surgirá, depois dessa chuva, uma lua fresca e serena. E ela dormirá coberta de luar...
Amanhecerá. Terá a manhã livre para comprar o necessário para a viagem, porque o navio parte às duas horas da tarde. O mar está quieto, quase sem ondas. O céu de um azul violento, gritante. O navio se afasta rapidamente... E em breve o silêncio. As águas cantam no casco, com suavidade, cadência... Em torno, as gaivotas esvoaçam, brancas espumas fugidas do mar. Sim, tudo isso!
Mas ela não tem suficiente dinheiro para viajar. As passagens são tão caras. E toda aquela chuva que apanhou, deixou-lhe um frio agudo por dentro. Bem que pode ir a um hotel. Isso é verdade. Mas os hotéis do Rio não são próprios para uma senhora desacompanhada, salvo os de primeira classe. E nestes pode talvez encontrar algum conhecido do marido, o que certamente lhe prejudicará os negócios.
Oh, tudo isso é mentira! Qual a verdade? Doze anos pesam como quilos de chumbo e os dias se fecham em torno do corpo da gente e apertam cada vez mais. Volto para casa. Não posso ter raiva de mim, porque estou cansada. E mesmo tudo está acontecendo, eu nada estou provocando. São doze anos.
Entra em casa. É tarde e seu marido está lendo na cama. Diz-lhe que Rosinha esteve doente. Não recebeu seu recado avisando que só voltaria de noite? Não, diz ele.
Toma um copo de leite quente porque não tem fome. Veste um pijama de flanela azul, de pintinhas brancas, muito macio mesmo. Pede ao marido que apague a luz. Ele beija-a no rosto e diz que o acorde às sete horas em ponto. Ela promete e torce o comutador.
Dentre as árvores, sobe uma luz grande e pura.
Fica de olhos abertos durante algum tempo. Depois enxuga as lágrimas com o lençol, fecha os olhos e ajeita-se na cama.
Dentro do silêncio da noite, o navio se afasta cada vez mais.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Chamar a si todo o céu com um sorriso
que o
meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se
os homens não as ouvem estão velhos
que o
meu pensamento caminhe pelo faminto
e
destemido e sedento e servil
e
mesmo que seja domingo que eu me engane
pois
sempre que os homens têm razão não são jovens
e te
ame muito mais do que verdadeiramente
nunca
houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar
a si todo o céu com um sorriso
E.E. Cummings
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