terça-feira, 15 de julho de 2025

Funeral Blues

Hoje reassisti à "Four Weddings and a Funeral" (Mike Newell, 1994) e um dos personagens cita o poema abaixo, desse autor chamado W. H. Auden, que me tocou bastante. Deixo aqui para recordar:


Stop all the clocks, cut off the telephone,

Prevent the dog from barking with a juicy bone,

Silence the pianos and with muffled drum

Bring out the coffin, let the mourners come.


Let aeroplanes circle moaning overhead

Scribbling on the sky the message ‘He is Dead’.

Put crepe bows round the white necks of the public doves,

Let the traffic policemen wear black cotton gloves.


He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last forever: I was wrong.


The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun,

Pour away the ocean and sweep up the woods;

For nothing now can ever come to any good.


-  W.H. Auden.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

O rosto

Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma e a alma tem um tamanho muito diferente do corpo.
Percebi que ver verdadeiramente uma pessoa obriga a um esforço como o de estarmos sentados nos nossos bancos a tomar conta do que passa pelos montes. Percebi que ver verdadeiramente uma pessoa também é como prevenir os fogos, como fazia o meu pai que, afinal, era guarda-florestal.
O rosto é mais turvo do que os céus e pode ser muito mais complexo do que saber exactamente de quem é um rebanho e se cresceu ou diminuiu. O rosto começa onde se vê e vai até onde já não há luz nem som. Por isso, por mais que observemos, ainda muita coisa nos há-de escapar e o importante é que estejamos tão atentos quanto possível para nos conhecermos uns aos outros.
Conheci melhor o meu pai. Conheci melhor a minha mãe. Até conheci melhor o nosso cão, que era mesmo maluco, porque lho via no rosto e tudo. Entendi que o rosto é extenso e infinito, capaz de expressões que vamos conhecendo e outras que nunca vemos. Toda a vida precisamos de estar atentos, se assim não fizermos vamos perder muito do mais importante que acontece em nosso redor. Como se houvesse um incêndio mesmo diante de nós e nem sequer o percebêssemos antes que restem todas as coisas completamente queimadas.

"Contos de cães e maus lobos", por Valter Hugo Mãe 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Trecho de "Frances Ha (2012)"

 

Greta Gerwig em "Frances Ha (2012)". Fonte: imdb


"It's that thing when you're with someone, and you love them and they know it, and they love you and you know it... but it's a party... and you're both talking to other people, and you're laughing and shining... and you look across the room and catch each other's eyes... but - but not because you're possessive, or it's precisely sexual... but because... that is your person in this life. And it's funny and sad, but only because this life will end, and it's this secret world that exists right there in public, unnoticed, that no one else knows about. It's sort of like how they say that other dimensions exist all around us, but we don't have the ability to perceive them. That's - That's what I want out of a relationship. Or just life, I guess."

                                                                                - Frances Ha (2012)

Tenho lembranças muito nítidas de quando, durante a minha infância, eu recorri à escrita ou à leitura para aliviar a realidade amarga da minha casa. Crescer numa família desestruturada certamente me exigiu em vários momentos uma maturidade que eu não via nas crianças da minha idade. Pensar nessas coisas agora é muito incômodo e doloroso, mas faz tempo que procuro colocar pra fora e não consigo.

Essa é só mais uma tentativa de resgate da criança que eu fui, que era esperançosa, curiosa, criativa e questionadora. Se hoje, depois de tantos perrengues, eu continuo aqui, é porque no fundo, no fundo, a luz dessa criança continua acesa (mas por muito tempo eu me senti e ainda me sinto muito apartada dela). 

Hoje, aos 27 anos, poucas são as histórias boas da minha infância que consigo acessar, talvez por ter vivido coisas muito traumáticas, mas o fato é que essa criança se perdeu de mim e tô procurando encontrá-la. Não sei em que esquina das minhas memórias eu vou dar de cara com ela, mas me comprometo, aqui, a alimentá-la e levá-la pra casa comigo. Zelar, limpar as feridas, fazer curar.

Onde que, dentro de mim, eu ando?

Quando, no terreno fértil das minhas lembranças, a gente vai se encontrar?

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Amor feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.

Adélia Prado

Espaço curvo e finito

Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe,
Um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.

José Saramago

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento. 

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


Fernando Pessoa