sexta-feira, 5 de maio de 2023

Tenho lembranças muito nítidas de quando, durante a minha infância, eu recorri à escrita ou à leitura para aliviar a realidade amarga da minha casa. Crescer numa família desestruturada certamente me exigiu em vários momentos uma maturidade que eu não via nas crianças da minha idade. Pensar nessas coisas agora é muito incômodo e doloroso, mas faz tempo que procuro colocar pra fora e não consigo.

Essa é só mais uma tentativa de resgate da criança que eu fui, que era esperançosa, curiosa, criativa e questionadora. Se hoje, depois de tantos perrengues, eu continuo aqui, é porque no fundo, no fundo, a luz dessa criança continua acesa (mas por muito tempo eu me senti e ainda me sinto muito apartada dela). 

Hoje, aos 27 anos, poucas são as histórias boas da minha infância que consigo acessar, talvez por ter vivido coisas muito traumáticas, mas o fato é que essa criança se perdeu de mim e tô procurando encontrá-la. Não sei em que esquina das minhas memórias eu vou dar de cara com ela, mas me comprometo, aqui, a alimentá-la e levá-la pra casa comigo. Zelar, limpar as feridas, fazer curar.

Onde que, dentro de mim, eu ando?

Quando, no terreno fértil das minhas lembranças, a gente vai se encontrar?

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